Éramos não mais de cinco pessoas no total. Contando comigo, quatro eram cristãs. Uma outra não. Acredito que por volta de oitenta por cento do conteúdo da conversa girava em torno dos temas igrejas, pastores, denominações, ou seja, assuntos “eclesiásticos”. O que me deixou abatido foi perceber que os comentários eram tendenciosa e explicitamente pejorativos.
Silenciei-me, ouvindo. Acredito que a minha mineiridade adquirida falou alto naquela hora. Observava. Nada comentava. Doía-me saber que ali cristãos falavam de outros cristãos de maneira descomprometida com os princípios do Mestre. A presença daquela pessoa não-cristã fez com que o episódio tomasse ares de escândalo a meu ver. Não quero com isso eximir os comentários que acontecem somente entre os crentes. Acho que a presença daquele outro aponta para a falha no procedimento. Bem dizia o vovô: roupa suja se lava em casa[i].Temos muito o que caminhar com o caminho, a verdade e a vida para aprender a viver o que é essencial. Apesar desse incidente, ainda creio que aquela pessoa não-cristã que ouvia aquele papo furado precisa ouvir uma palavra cheia de amor e graça: a mensagem do Evangelho. E, quando comprometidos em viver e anunciar essa mensagem, pouco tempo sobra para discutir o sexo dos anjos e outras perfumarias tão recorrentes no meio “evangélico”.
Que Deus nos livre da murmuração! Aliás, até mesmo a palavra “murmurar” é feia. Se a gente repete em voz alta e pausadamente, dá pra perceber que, de fato, não se trata de alguma coisa boa. Paulo recomenda aos cristãos para que “façam tudo sem murmuração nem bate-bocas” (Filipenses 2.14), a fim de conhecerem mais a vontade e a realidade que Deus tem para nossas vidas.
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[i] E Tiago instruiu tanto! No capítulo 3 da sua carta, ele dedica doze versículos para ensinar aos crentes sobre a ardilosidade da língua. A maneira como o autor elabora o discurso, digamos, anti-fofoca é contundente e, em certos pontos, até poética. Um dos trechos principais é o versículo 5: “a língua, pequeno órgão, se gaba de grandes coisas. Vejam como uma fagulha põe em brasas tão grande selva”.