sábado, 27 de dezembro de 2008

Tempo

Ontem reencontrei amigos que não via há bastante tempo. Por algumas horas, estivemos juntos, conversando sobre trivialidades. Um momento especial chamou minha atenção: abrir um álbum de fotos.

Entre uma página e outra, revivia tempos passados. Percebi que entre o tempo de algumas daquelas fotos e hoje foram-se dez anos. Muitos. Rápidos. Diversos anos. E eles passaram de repente. É uma experiência engraçada, "quem é esse aqui?", "não, não acredito!", "por favor, vire esta página"... e importante - acredito - olhar para nós mesmos, com os olhos de hoje, para uma imagem de ontem.

E a gente vai crescendo. O tempo passa. Aquelas fotografias são flagrantes de uma época adolescente, daquela irresponsabilidade sadia nas brincadeiras, no jeito de levar a vida.

Como o Menino Maluquinho, a gente não consegue segurar o tempo.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Pecado, a doença da alma

Ricardo Barbosa de Sousa*

A história de Fausto (Goethe, 1806) é considerada um símbolo cultural da modernidade. Ela retrata a vida de um médico e intelectual alemão que, entediado e desiludido com o conhecimento que não lhe deu significado, e com a vida que não tinha mais sentido, faz um pacto com o demônio Mefistófeles, que se oferece para atender todos os seus desejos e vontades. Então ele se entrega aos prazeres nos vinte e quatro anos que fica sem envelhecer, em virtude do pacto que fizera, assinado com seu próprio sangue, e, no fim desse tempo, é levado para o inferno e a morte.

A busca obsessiva pela auto-realização tem levado o ser humano a pagar um preço muito alto para consegui-la. Neste vale-tudo da satisfação imediata, as pessoas se entregam sem limites e sem controle, seja a dieta ou ao sexo, ao consumo ou à malhação, expondo o corpo e a alma aos demônios modernos que se oferecem para atender todos os desejos e vontades. Tudo é feito com intensidade, sem uso da razão ou do bom senso, e com um custo espiritual, emocional e físico muito elevado.

O tédio, as incertezas, a negação do sagrado e dos valores éticos e morais tornam o ser humano vulnerável aos Mefistófeles modernos. Tiago, em sua pequena carta, nos apresenta numa rápida descrição a forma como o pecado é concebido e suas conseqüências para o corpo e a alma: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte” (Tg 1.13-15). Para Tiago, a tentação que dá à luz o pecado vem de nós, somente de nós. Não temos como responsabilizar ninguém, apenas nossa cobiça, que nos seduz, alimenta a luxúria interior de cada um, engravida e dá à luz o pecado, que nasce, cresce, fica adulto e se transforma num terrível assassino.

O pecado continua sendo o grande problema do ser humano. Porém, o que acontece hoje é que ele não representa mais um grande problema; pelo contrário, chega a ser glamourizado. Aquilo que no passado foi repudiado hoje é visto como virtude; ambição, ganância, vaidade, promiscuidade, consumo são valores em alta. Com o avanço da ciência, o pecado deixou de ser um conceito teológico para se transformar em “doenças” e ser tratado com remédios. A dor da culpa que Davi sentiu por ter ofendido a Deus e ao próximo, que ele descreve nos salmos de confissão, hoje não é mais tratada com arrependimento e confissão, mas com terapia e prozac. Porém, a raiz do problema da humanidade continua sendo o pecado, a cobiça de cada um de nós, que vem dando à luz este assassino serial, colocando em risco a pessoa, a família e a sociedade.

Sabemos que a força última que move o ser humano é seu desejo por Deus. Em suas “Confissões”, Agostinho expressa assim este desejo: “Contudo, esse homem, uma partícula da tua criação, quer louvar-te. Tu mesmo o incitas a deleitar-se nos teus louvores, porque nos fizeste para ti e o nosso coração está inquieto enquanto não descansar em ti”. Por outro lado, se Deus não permanece no centro dos nossos desejos, eles se tornarão vulneráveis e confusos, levando-nos a ceder às seduções da mentira e do engano, envolvendo-nos em ilusões e paixões, numa busca insana de falsas realizações, adoecendo a alma e assassinando o corpo.

O que Tiago ou a história de Fausto nos revelam é que o personagem pensa que está no controle de tudo, gozando a vida como lhe agrada, se entregando a todos os desejos e prazeres; porém, só fica sabendo, às vezes tarde demais, que viveu uma grande ilusão e tornou-se menos real do que a figura sombria que o seduziu.

Como disse Agostinho, “Fizeste-nos para ti, Senhor, e o nosso coração permanece inquieto enquanto não repousar em ti”. Somente quando buscamos nossa realização e satisfação em Deus é que nossa alma encontra descanso e paz.


*Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de “O Caminho do Coração” e “Conversas no Caminho”.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Que autonomia?

Philip Yancey


Minha esposa e eu passamos um tempo no interior da Tasmânia, uma ilha escarpada na costa ocidental da Austrália. Um criador de ovelhas abriu uma pousada no meio do pasto, sede da fazenda. Sabendo que dificilmente comeríamos um cordeiro fresco, decidimos nos hospedar com ele.


Na hora do jantar, perguntei inocentemente sobre a estranha coloração – laranja, vermelho, azul e verde – que tínhamos visto nas ancas de uma ovelha. “É assim que acompanhamos o processo de reprodução delas” – explicou ele, sorrindo. “Eu penduro giz colorido num lugar estratégico do carneiro. Ele deixa a sua marca quando faz seu trabalho. Assim, eu sei que todas as ovelhas com traseiras alaranjadas foram atendidas. Quando a tarefa prossegue – as ovelhas são pontuais e 100% férteis – posso reunir as ovelhas alaranjadas e dar-lhes atenção especial.


Nos minutos seguintes, aprendi muito sobre os hábitos reprodutivos das ovelhas. Cada uma tem um período de apenas seis horas para receber o carneiro. Isto não é um problema, pois o macho tem plena certeza de que será bem atendido num determinado momento. O fazendeiro separa dez carneiros para cobrir quatro mil ovelhas, o que significa que trabalharão até a exaustão, perdendo muito do seu peso no processo feito de muito trabalho e nenhum romance.


Quando vi um carneiro esquelético e sujo, dei graças a Deus por ajustar os termos da sexualidade na espécie humana. Aliás, os zoólogos dizem que poucas espécies – golfinhos, alguns primatas e os grandes felinos – se envolvem no sexo de uma forma prazerosa.


Passei a manhã seguinte andando pelos campos, tomando cuidado onde pisava. Tentei imaginar a vida do ponto de vista de uma ovelha. Elas passam 90% do seu tempo andando, de cabeça baixa, procurando por um capim. De vez em quando, um cão belisca suas patas, tangendo-as para as direções que quer levá-las. Quando o tempo muda, elas se amontoam na chuva e no vento. Um vez por ano, um primo bravo aparece e arremete contra elas, deixando-as marcadas com uma estranha cor. A barriga cresce, os cordeiros surgem e a atenção se volta para o desmame destas criaturas pequenas e travessas que brincam pelo pasto. Irmãos e irmãs podem desaparecer, algumas vezes, atacados por um demônio da Tasmânia (estes sórdidos marsupiais que realmente existem), outras vezes são conduzidas pelo ser de duas pernas. As mesmas criaturas periodicamente vão para um armazém onde são tosquiadas, ficando geladas e encabuladas por algum tempo.


Enquanto eu andava, ocorreu-me que as ovelhas, no nível em que pensam, devem achar que decide os seus próprios destinos. Elas pastam, ruminam, fazem escolhas e vivem suas vidas com algumas interrupções por cães, carneiros e pessoas. Elas não conhecem a cena completa que está sendo orquestrada de acordo com um plano racional pelos humanos que vivem na fazenda.


Sei que a analogia com as ovelhas não é exata. Nem mesmo a ovelha mais estúpida negaria a existência de um mundo além do seu – marsupiais, humanos e cachorros. Nós, seres humanos, especialmente os que vivemos nestes tempos reducionistas, simplesmente decidimos que nada existe além da fronteira com os nossos sentidos. Alguns estão convencidos de que o que não podemos ver não existe.


Estamos diante de Deus como as ovelhas estão diante de nós? Em certo sentido, não: Deus garante o conhecimento aos que estão “embaixo” e permite um relacionamento real com Ele. Em outro sentido, sim: “Sabei que o Senhor é Deus! Foi Ele quem nos fez, e somos dEle; somos o Seu povo e ovelhas do Seu pasto”, escreveu o salmista (Salmo 100.3). Notemos os pronomes possessivos: Seu povo, Seu pasto.


Vivemos num mundo que, em sua essência, em sua origem e em seu destino pertence a Deus. E nós mesmos somos propriedade de Deus. Podemos insistir em nossa autonomia, mas no fim sabemos que essa autonomia não é mais real do que a de uma ovelha da Tasmânia.

domingo, 26 de outubro de 2008

Nem para mais, nem para menos

Deus ama você incondicional, verdadeira, intensa, irrevogável, decidida, pura e constantemente.
“Não há nada que você possa fazer para Deus te amar mais.
E não há nada que você possa fazer para que Ele te ame menos”.
(Philip Yancey em Maravilhosa Graça)

“Não por quem eu sou, mas por aquilo que Tu fizeste.
Não por aquilo que eu faço, mas por quem Tu és”.
(Casting Crowns em Who am I?)

“As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se a cada manhã. Grande é a sua fidelidade. A minha porção é o Senhor, diz a minha alma; portanto, esperarei nele”.
(Lamentações 3.22-24)

“Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor”.
(Romanos 8.38-39)