terça-feira, 2 de abril de 2013

O olhar do Gólgota

Edvard Munch, Gólgota, 1900
Óleo sobre tela. 80 x 120 cm.
Munch Museu, Oslo, Noruega.

O azul, em companhia do roxo e do preto, compõe a parte superior da tela, contrastando com a massa multicolorida embaixo. A tensão das pinceladas que constroem a massa anil se traduz nas linhas distorcidas que orientam a composição das personagens participantes da obra. O elemento pictórico que conjuga céu em tensão e terra em dispersão é, basicamente, o traço verticalizado cruzado com a linha horizontal. Destacado mediante uma luminosidade amarelada em oposição ao sinistro predominante no quadro, esse componente ocupa o cerne da imagem. Na pintura, uma sensação de convergência leva os nossos olhos ao centro da tela e, nele, encontramos o crucificado.
Os perfis de homens e mulheres, sugeridos aos pés da cruz, parecem compor um cenário multicultural, mesclando gente de tribos, povos e etnias variados. Além disso, eles têm distintas posições ante o acontecimento. Alguns parecem ser levados, capturados pelo evento, dissolvendo-se em rendição, perdendo-se e fundindo-se aos outros; alguns se mostram chorosos, contritos, quiçá, em lamento pela violência da cena; alguns, ainda, parecem rir, em uma sugestão de satisfação e/ou zombaria diante da execução daquele homem no madeiro; por fim, alguns aparentam indiferença, desviando-se da situação, ou melhor, da necessidade de olhar para ela e se afetar.
Foi assim que Edvard Munch (1863-1944), pintor norueguês, escolheu contar a história da crucificação de Jesus Cristo em seus dias. Gólgota tem estado em meu olhar já faz tempo e, desde quando a encontrei, percebo que muito ela comunica estética e religiosamente – no melhor sentido das palavras. Neste ano, refletindo sobre a paixão do Messias, voltei-me à tela a partir do seguinte versículo, no qual Jesus mesmo diz: “quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim.” (João 12.32) Encontrei uma conversa entre esse trecho das Escrituras e a pintura de Munch. Penso que essa atração da qual Jesus falou consegue ser ilustrada no exercício pictórico realizado.
É interessante notar a sugestão de povos distintos naquele cenário. Nessa representação, parece ecoar a descrição profética que o próprio João faz daquilo que Cristo veio fazer no mundo: “olhei, e diante de mim estava uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, de pé, diante do trono e do Cordeiro, com vestes brancas e segurando palmas. E clamavam em alta voz: ‘A salvação pertence ao nosso Deus, que se assenta no trono, e ao Cordeiro’" (Apocalipse 7.9 e 10). O Monte da Caveira, o Gólgota, foi onde o Cordeiro de Deus se doou e se entregou, morrendo a nossa morte, pagando o preço dos nossos pecados, dando sua vida para que tenhamos vida eterna, atraindo todos os homens para si.
O artista faz questão de deixar pessoas terem reações diferentes perante a cruz e o crucificado. E é de fato importante mencionar essa liberdade que o próprio Jesus permite que tenhamos neste tempo. Contudo, quando o Rei dos reis retornar, o critério de sua justiça parte de nossa reação à cruz. Logo, percebendo Cristo que se entrega à morte no madeiro, importa enxergá-lo em busca de uma decisão, acatando e compreendendo que o seu sacrifício tem direta relação conosco ou não. Assim como em O grito e em outras de suas obras, Munch deixa a perturbadora presença de um personagem que, da tela, olha para o espectador, fitando-o imperativamente. Talvez, seja esse homem eu. O seu olhar me encontra e me questiona acerca de que modo reajo diante da morte de Jesus Cristo.

Nenhum comentário: