quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Ato gratuito

Tenho o costume de levar alguns textos que acho interessantes para a sala de aula, compartilhando-os com os alunos. Geralmente, espero a última aula da semana para fazer isso. Depois de finalizar aquilo que estava planejado, surge no espaço-tempo pedagógico uma possibilidade de gastar – poucos que sejam – alguns minutos curtindo o texto literário apenas pelo seu prazer. E faço questão de fazê-lo de modo apaixonado.

Não é difícil, nesses momentos, ouvir perguntas do tipo “pra quê isso?”, “isso vai cair na prova?”, bem como aquelas outras que, embora não se explicitem verbalmente, manifestam-se nas expressões faciais e em risadas debochadas, por vezes, dizendo-me “você está louco?” com suas variações.

O primeiro escopo de perguntas me leva a pensar no utilitarismo pedagógico. Por este princípio, tudo o que se pretende fazer na escola é, meramente, algo possível de aproveitamento imediato, direto e verificável nas avaliações. Como avaliar, então, o despertar emocional gerado por um poema? Como avaliar, então, frente a uma obra de arte, a sensibilização de alguém para determinado aspecto da vida?

O segundo grupo de indagações não é visto por mim como algo pessoal. Antes, “você está louco?” – pergunta manifesta diante de uma leitura expressiva do texto literário – aponta para uma concepção insensibilizada da linguagem e, por extensão, da própria existência na contemporaneidade. É preciso provocar os sentidos de uma geração anestesiada pela tecnologia, ainda que isso soe como loucura por ser, essencialmente, humano.


Voltando à sala de aula, naquele momento em que ofereço à classe um texto literário pelo simples fato de doá-lo à apreciação, quero apenas deixar os estudantes diante de algo que os provoque de certo modo, que os faça pensar, que os sensibilize, que os capture em meio a tantos estímulos impessoais e automatizados que sobre eles se processam. Acredito que a literatura tem a capacidade de sensibilizar, de deslocar-nos do lugar-comum, de provocar em nós reações, conscientes ou não, sobre o que é e como se dá o existir e o ser em suas múltiplas manifestações.

Precisamos do ato gratuito, daquele momento em que a vida pode se expressar sem o peso da obrigação e da utilidade. Em um tempo determinado pelo consumo, o que é gratuito, infelizmente, passa como algo sem valor. Se a pergunta “para que serve isso?” continuar invadindo nossos atos gratuitos, vale a pena dar-lhe um nó, retrucando com um sonoro “para viver”.

3 comentários:

Edgard da Cunha Pontes disse...

Ótimo texto Edson! Gostei muito da forma como foi escrito e ainda mais do tema abordado.
Infelizmente, nós estamos vivendo em um mundo cada vez mais imediatista, em todos os sentidos.
Espero que muitos alunos seus, dentre outros adolescentes, ou até adultos mesmo, possam desfrutar de singelos 5 minutos de uma ótima leitura sem compromisso ou valendo nota, rsrs...
Um abraço e continue escrevendo pra nós! :D

Menininha disse...

infelizmente vivemos um imediatismo absurdo... se não tiver um resultado rápido e específico, como "vai cair na prova?". tendemos a descartar...

a idéia de durabilidade está cada dia mais desaparecendo...

Ronni disse...

Meu amigo, como gostaria de ter sido seu aluno! rs!
Mas pense: há ainda os que se fascinam com seus textos e, é certo, que a outros sua maneira de agir está invadindo, trazendo uma boa novidade! Por isso vale a pena ler para viver! =)
Seu texto me lembrou o filme "Escritores da Liberdade". Sobre moços que foram mudados pelo poder da escrita e da leitura!
Tem sempre meu apoio, Edson.
Grande abraço!