quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Perguntar não ofende?

Na semana passada (16/01), comecei a trabalhar num grupo de escoteiros com vinte garotos cuja idade é de nove e dez anos (o correspondente no Brasil são os "Lobinhos"). Eu estava empolgado com a idéia de começar algo novo. Quando digo novo, é novo mesmo. No Brasil, nunca participei de atividades de escotismo.

Lá fui eu. Acompanhado da líder do grupo, conheci os meninos. Pude conversar um pouco com eles falando quem eu era, de onde venho, enfim, apresentando-me. Depois disso, perguntei se alguém tinha alguma pergunta a fazer. De início, ninguém queria perguntar nada; mas depois que o primeiro menino levantou a mão e lançou a questão, outras vieram como que automaticamente.

A sinceridade das crianças é uma coisa impressionante. Bem, não posso me queixar de nada, afinal, fui eu que perguntei se eles tinham alguma pergunta, algo que queriam saber. E elas vieram!

Uma das primeiras veio de um menino que estava assentado ao meu lado. Ele virou-se para mim e com uma feição curiosa argüiu: "Você tem muito dinheiro?". Eu não esperava mesmo essa pergunta. Pensei, repeti para mim mesmo a pergunta antes de querer responder alguma coisa. Eu sorri meio sem graça para ele e respondi: "Não, eu não tenho muito dinheiro". Não consegui articular mais nada.

Teoricamente, eu respondi a pergunta dele. Entretanto, para mim a pergunta desse menino não ficou respondida por completo, talvez porque ela me fez perguntar outras coisas. O primeiro pensamento foi simples: "Por que um menino de dez anos quer saber se eu tenho muito dinheiro?". Quem sabe ele deduziu que um brasileiro para vir morar na Noruega tem que ter bastante dinheiro: o que não é o meu caso. Ou, ainda, ele pensou que um estrangeiro poderia se enriquecer vindo morar aqui (1): o que continua não sendo o meu caso.

As perguntas que vieram em seguida têm um padrão comum. Outro garoto não esperou muito e perguntou "Você tem um carro?", respondi: "Não". "Por quê?", continuou. Falei que não tinha carteira de motorista e que também não podia comprar um carro porque era caro. "Então, por que você não compra uma moto?". Tentei responder na mesma linha.

Por que esses meninos estavam tão interessados na minha "pessoa econômica"? Fico pensando no simples fato de que com nove, dez anos de idade esses meninos estão interessados em saber o quanto de dinheiro (2) e o que tem a outra pessoa. Isso é sintomático! De uma forma ou de outra, essa curiosidade-sobre-a-vida-econômica-alheia reflete padrões e comportamentos que os "educadores" dessas crianças assumem e nutrem. E, para deixar bem claro, os "educadores" básicos dessas crianças são os pais (em princípio), os professores e a sociedade em geral com seu jeito de ser (ser?).

Obviamente, eu continuo a trabalhar com os lobinhos. Acredito que o X da questão não são eles por si mesmos. Eu fico é pensando no quanto nós somos cruéis por perpetuar esse senso de humanidade(?) que não sabe identificar o significado da pessoa independente do que ela tem. Mentimos para nós mesmos sobre nossas atitudes egoístas do dia-a-dia, alegando que é "assim mesmo, fazer o quê?" numa racionalidade burra. E ainda temos a cara-de-pau para dizer que "educamos" e que "temos educação". Para mim, alienação travestida de liberdade nas entranhas e essência do sistema não educa. Insistimos em erros, teimamos, resistimos às mudanças e preferimos os nossos bons e velhos procedimentos a estarmos fora da nossa zona de conforto (olha só, "bons e velhos": e ainda nos achamos avançados). Se esses meninos e tantos outros continuarem a fazer as mesmas perguntas para outras pessoas, a culpa é minha!

Mais duas perguntas que os meninos me fizeram naquele dia: "Você tem namorada? É casado?" e "Você tem casa no Brasil?". Respondi um "não" para a primeira que na verdade eram duas e um "sim" para a segunda. Perguntas, perguntas e mais perguntas. Essas foram as deles que mais me desconcertaram. Mas eu não fiquei passivo e resolvi perguntar o nome de cada um deles. Semana que vem os encontro de novo.

Notas:

(1) Lembro que conversava com um amigo um dia pela internet e ele me perguntou: "E aí? Já deu para levantar uma boa grana?". Muitas vezes, as pessoas entendem que viver no exterior é sinônimo de enriquecimento. De fato, muitos buscam e conseguem isso. Pois bem, cá estou eu no exterior, mas o "meu negócio" não é dinheiro.

(2) Por falar em dinheiro, um amigo brasileiro do Hald escreveu um excelente artigo sobre isso que está disponível em inglês: Prophecy and poetry

6 comentários:

odin disse...

Interessante o seu blog! Que bom conhecer alguém que valoriza o ser humano pelo que é, e não por aquilo que possui. Não tenho encontrado muitos...

carol disse...

Caro amigo Edson, estou um pouco sem palavras com esse teu tyexto, talvez pq compartilhemos do mesmo pensamento. Essa seman pensei nessas questões que deixamos passar despercebidas em nossa vivência tanto que meu nome no orkut é:A beleza está amuito além da imagem, em todos os apsectos seja ele no fisico, no vestir no possuir, a beleza do que somos não está no que temos. Tanto a beleza quanto a feiura es´tão lá dentro, alem do involucro.

Amei seu texto, está contundente como vc diria sobre mim, são palavras vivas contidas de uma sutil indignação..
Ah a beleza e a feiura do que somos, ou do que não somos, e principalmente do que permitimos ser.. Que deus nos ajude ....

Saudades de seus abraços estralados...

Thiago disse...

No Brasil assisti a um programa aonde ensinavam as criancas a poupar dinheiro.
Pensei, porquê não ensinam elas a brincar.
Imagina o que uma crianca de 4-6 que aprende a slavar dinheiro vai se torna?
Lembro que quase chorei de indignacão. Não há lazer na fase adulta pois este é condenado (ou as pessoas não sabem como se divertir de maneira saudavel).

O que me marca é ver que Jesus exalta os pequeninos por eles não serem auto-suficiente e só a esperanca na evangelho me faz acreditar que ainda podemos ter um futuro melhor.

belo texto, assim como a reflexão cotonete hahaha

abraco

Kjetil disse...

óla Edson.
Eu estou pensando sobre os valores das criancas que você econtrou, eles podem têr de mim, quando eu era crianca. Mas, felizmente, eu sei agora que os dinheiros não tem valor em mesmo jeito que por exemplo meus amigos e minha familia.

kivle disse...

óla Edson.
Eu estou pensando sobre os valores das criancas que você econtrou, eles podem têr de mim, quando eu era crianca. Mas, felizmente, eu sei agora que os dinheiros não tem valor em mesmo jeito que por exemplo meus amigos e minha familia.

Edson Munck Jr disse...

Hei, Kjetil!
Så kjejt at du kunne lese og kommentere. Jeg har tenkt mye om våre betydninger i løpet av denne tiden i Norge. Selvøgelig har vi spørsmåler. Men det er så bra når kan vi kjenne personer som tenke på en forskelig måte her... Jeg har kjent mennesker som det og jeg er glad i dem.